Portugal inteiro

O nosso querido e amado país divide-se de forma carinhosa em regiões que reclamam singularidade soberana e independência cultural. Desde o Minho ao Algarve é fácil perceber a necessidade de auto-afirmação de cada região em luta permanente para captar todo e qualquer turista distraído. Esta concorrência saudável faz crescer um país avido de esperança e emprego, carente de futuro e crente nas suas gentes. Cada indivíduo por si só luta e trabalha diariamente para carregar aos ombros um bocadinho desta terra a que chamamos Portugal. Até aqui tudo se encaixa e justifica a dureza dos nossos dias, compreendemos que vivemos num mundo cada vez mais exigente e competitivo, e não podemos camuflar que a entrada dos Impérios do BRIC no mercado mundial vão definitivamente agitar os equilíbrios económicos até aqui conseguidos. É justo, era expectável na medida em que vivemos num mundo cada vez mais livre e concorrencial. Resta agora analisar se esta nova ordem respeita o processo evolutivo das necessidades da sociedade, isto é, a abertura do mundo a novos mundos só se poderá realizar com a garantia de que aquilo que era velho não será transposto para a nova realidade, ou seja, a continuidade da divisão social Ricos contra Pobres.
No meu entender o crescimento da classe média, que veio em muito promover a paz social, depressa se transformou em pilar de crescimento, garantindo uma qualidade de vida razoável e serena a uma grande faixa da população. É líquido que em tempos de crise são eles, classe média, a suportar a fatura, desde logo despromovendo uma quantidade significativa de membros para a qualidade de classe baixa. Aqui surge a problemática, o aumento significativo de seres humanos a viver em condições deficientes e com altos índices de carência e o surgimento de novas riquezas concentradas nas mãos de apenas alguns.
Portugal é fértil nestes desequilíbrios. Com uma população onde a taxa de alfabetização ronda os 95% é no mínimo estranho existir esta permissão. Isto leva-nos a questionar a qualidade da alfabetização. Em qualquer país onde o ensino é reconhecido será difícil encontrar esta disparidade social e económica apenas comparável a países terceiro mundistas ou em vias de desenvolvimento. Surge assim uma nova espécie de perigosos indivíduos os “que sabem ler, mas não sabem o que ler”, e porquê perigosos? Porque servem-se da formação que têm apenas para ler as placas que lhes mostram, e seguem fielmente os bilhetinhos deixados por seus mestres. Forma um exército de elite ao serviço dos interesses superiores.
Li, algures, que no antigo regime havia a ideia de manter o povo ignorante e analfabeto como forma de o controlar, e hoje reconheço uma capacidade maior da mão invisível que nos comanda, ensinar a população a ler para mais tarde a controlar pelo que lê.
Esta sequência de ações conduzem irremediavelmente à promoção da lei social que alguns insistem em fazer perdurar no tempo, a cadeia de comando, a hierarquia, o posicionamento de poucos no topo da pirâmide sentados no dorso dos “índios”. E nisto Portugal é exímio, conduz o seu povo a ler o que não presta, a ver os programas televisivos ridículos, a transformar a posse de um smartphone como bem de primeira necessidade… enfim… um país que sabe ler, mas não sabe o que lê, que conhece o abecedário mas não reconhece o ideal, que se autoproclama evoluído mas na verdade não sabe ler a palavra Cultura.

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