O silêncio dos culpados.


Alguns açoreanos foram a votos e decidiram pela maioria que ficou em silêncio. 

E porque ficaram em silêncio? Estariam amarrados ao pé da mesa? Obrigados ao recolher obrigatório? Ou simplesmente não compareceram por acharem que esse era um direito que lhes assistia? 

Questiono a mensagem que lemos de uma abstenção que grita desinteresse?
Estamos a desprezar a liberdade e os direitos que foram conquistados com sangue pelas gerações passadas. 
A questão não é nova. 

O desleixo geral aumenta de eleição em eleição. 

Nunca é pouco lembrar que há sensivelmente 50 anos o direito ao voto era reservado, e que o próprio resultado das eleições estaria muito provavelmente controlado pelo poder político. Hoje em dia a liberdade está instalada e mesmo assim pouco nos interessa. Preferimos passar um dia no sofá e não levantarmos o “traseiro” para exercer um ato cívico. 

Rejeitar este direito ainda é mais grave que deitar fora um cheque de devolução de IRS. 

O voto deveria ser obrigatório e sujeito a sanções fiscais nos casos de não cumprimento, e porquê? Naturalmente porque infelizmente por vezes é importante ensinar (e relembrar) que a liberdade não é, infelizmente, um direito adquirido e eterno. 

Sempre que permitimos que alguém escolha por nós é como se as nossas fronteiras acabassem de ser pisadas sem controlo. 

Custa-me acreditar que o meu povo deixa nas mãos de terceiros o comando dos seus interesses, e rejeito aceitar que em cada português exista um carneirinho que, por comodismo e preguiça, se sujeite aos imperativos de um pastor que por agora é brando mas que, e quem sabe um dia, se poderá transformar em porteiro do inferno. 

Tristão de Andrade 

ONU, e agora?

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António Guterres provou nos últimos meses o quanto deseja a ONU.
Viajou, dialogou, expôs, e mostrou toda a sua capacidade. Ergueu bandeiras de transparência, rigor e paz. Empenhou a sua honestidade, dedicação e altruísmo. Ofereceu-se com o apoio de Portugal e entregou-se à causa mundial. E, quando do nada, a ONU num faz de conta político, atira uma mão cheia de areia aos olhos dos povos mundiais trazendo à luz alguém cozinhado na panela dos interesses.

Há muito que sabíamos que a diplomacia mundial era cínica e ardilosa, mas agora revela-se descarada e “sem vergonha”.
Ações assim afastam os homens sérios e de bem das causas e lutas mundiais.

Agora fica a dúvida: será que António Guterres vai continuar a desejar a ONU.

Tristão de Andrade

Segunda-feira!

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Afasto discretamente a cortina para espreitar pela janela que nos separa. Permaneço em silêncio e escondido por detrás dessa parede sólida e intransponível. Vejo-te mas não te sinto ou se calhar até sinto, mas não te toco. Chegas para trabalhar e carregas contigo a desilusão de um fim-de-semana cinzento.
Admiro-te e transformo-te em actriz do monólogo dos meus pensamentos.
Entristeço ao descobrir que vens sem querer chegar.
Maior e mais grave que a distância que nos afasta é a discrepância das nossas vontades; o desacordo dos nossos desejos. De repente deixo de te ver, e abro descaradamente a janela. Preciso de encontrar o teu rasto, o teu rosto ou pelo menos a tua sombra. Mas tu já não estás, já não és e transformas o preenchimento abundante da tua visão num vazio raquítico e escanzelado que se aloja em mim. Perco as minhas liberdades, os meus direitos, e depressa regresso às masmorras da solidão. Sem ti fico preso à tristeza.
Sem ti não passo de um funcionário da vida, um varredor de areias nos domínios do deserto.
Um perfeito inútil.
Torturo-me e lamento o meu destino, volto para dentro e fecho as cortinas. Não quero ver a luz do dia nem tão-pouco os raios lunares, fosse eu ministro e mandava apagar as estrelas ou, quem sabe, fazia o trespasse da vida.
Amanhã a esta hora voltarei a espreitar para te ver de novo, vou, quem sabe, perder o medo, e apostar tudo na minha confissão. Amanhã desço ao rés-do-chão para cara-a-cara te dar os bons dias.
É um bom começo e assim lá para sexta-feira, talvez, já consiga ter a coragem de homem neste coração de menino para confessar que és a chave do meu destino.

Tristão de Andrade

Foto – Fonte net

Clique

Às vezes até nem o ouvimos mas por algo estar a acontecer dentro de nós rapidamente acreditamos ter sido vítimas de um “clique”. Uma mudança súbita, uma alteração, uma mutação, seja lá o que for, na verdade um acontecimento inexplicável que nos enche de coragem para encararmos novos rumos.
Mas de onde surgirá essa energia?
Onde tem origem tal misterioso evento?
Nas estrelas, nos anjos, em Deus? Na física? Ou tudo não passará do estalar da consciência?
A verdade é que ele, o tal “clique” existe, acontece, e intervém objetivamente nas nossas vidas.
Usamos expressões como “ouvi um clique”, “deu-se o clique” ou até ” fez-se luz num clique” para explicar a impulsividade das nossas ações.
Será o “clique” um aviso de que estamos a pisar a derradeira linha da retaguarda da nossa substância? Ou o acordar animal para o exercício imediato da nossa defesa? Botão de emergência?
A verdade é que o Clique não comanda a vida mas estremece-a, investe nela como se de um vulcão se tratasse. O clique é um despertador silencioso, o provocador que faz acontecer tudo aquilo que normalmente não se deveria passar. Em alguns casos é como um milagre; “clique”e vira o jogo.
Uma coisa é certa: o “clique” é libertador e renovador, conduz à regeneração da nossa postura e o faz-nos enxergar com clarividência que os pressupostos básicos podem estar errados.
Quem sabe se não precisamos de mais cliques? Mais ação e mais coragem para ouvir todos os cliques que nos acontecem.
Clique aqui, clique ali e a vida como pano de fundo.
Clique.

Tristão de Andrade

No tempo em que as coisas eram nossas!

Porto Antigo
Queria tanto voltar àquela altura em que às ruas se davam nomes próprios, e nas praças se partilhava proximidade. Um “bom dia” aqui, outro acolá e o cuidado natural de saber o nome dos vizinhos. Queria voltar à época em que o hotel da cidade pertencia a alguém e não a uma entidade internacional, em que o restaurante servia comida e não fast food.

Queria voltar no tempo para rejeitar a globalização, a massificação e a standarização. Talvez o tempo não volte mas ainda me resta a oportunidade de escolher e preferir o tradicional.

Ser tradicional não confronta com a ideia de desenvolvimento, pelo contrário podemos crescer e evoluir com base nos nossos modelos tradicionais.
Alguém me explique a verdadeira diferença entre uma grande superfície em Portugal ou em qualquer parte do mundo ocidental?
Não sei se existe. E, mais grave é que tudo isso pertence e é comandado pela mesma mão.

Queria tanto voltar ao tempo em que as coisas eram nossas.

Tristão de Andrade

Foto – Fonte net

Fátima

Foto fonte net.
Foto fonte net.

Os olhos da cara não me deixam acreditar nos milagres de Fátima. A minha racionalidade é provocada pelos testemunhos prestados, e toda a fé, mística e crença constituem um desafio ao meu entendimento.
Tenho dias em que a minha metade científica apaga o meu lado espiritual, e vice-versa. Mas quantos de nós se agarram ao terço nas horas de aperto?
Momentos em que a necessidade obriga a apelar ao divino e assim, para causas impossíveis, nada como recorrer a soluções extraordinárias.

“Na doença, e na pobreza, na tristeza e na dificuldade”

E porquê prestar tributo ou oferecer sacrifício às divindades?
O que faria Santo António ou Fátima com o valor da minha confissão?
E Deus? O que tem Deus a dizer sobre tudo isto?

A fé não questiona os céus até porque de lá não chegam respostas. Ou vive em nós, ou a procuramos para a alojar em nós ou então simplesmente nem a conseguimos identificar ou vislumbrar a sua existência.

Ao chegar a Fátima é impossível não ceder ao impulso irracional para a obediência da corrente; é como se uma determinada energia se impusesse e nos conduzisse ao estado sensível, à introspecção e até à redenção. Será isto fé?

Fico sensibilizado com os peregrinos, gente de esperança que caminha e avança por longas estradas. Gente que não olha para trás, e segue de olhos postos no horizonte.

Tudo isto é Fátima, seja 13 de Maio, ou num outro dia qualquer.

Eu não acredito nos milagres com os olhos da cara mas um dia, quem sabe, outros olhos em mim se abrirão para me deixar tomar por essa verdade aceite e defendida por tantos: Fátima está em nós.

Tristão de Andrade

Foto – Fonte Net

Europa, e o futuro?

Europa

Hoje é dia da Europa e um pouco por toda a parte existem comemorações eufóricas. Os líderes europeus juntam-se ao redor de grandes mesas e almoçam juntos. Fazem vénias, estendem mãos e abrem os braços.
Todos se olham com alguma intimidade, e prometem mais cumplicidade.

Mas eu pergunto: até onde pretendem levar este continente?

Atualmente a globalização é uma realidade demasiadamente sentida na Europa. Tudo aquilo que temos em território nacional encontramos, com exagerada facilidade, em qualquer outra cidade do velho continente. Entre Lisboa e Berlim a única diferença reside no clima, na hora e no ordenado mínimo, em tudo o resto é igual. O comércio é o mesmo, os hábitos são similares, as rotinas completamente idênticas e já pouco espaço existe para a diferença.
Ouvi certo dia alguém dizer, e alguém de grande experiência e idade, que “aquilo que parecia mais óbvio ou evidente nem sempre era cartilha de futuro”, mas infelizmente nesta matéria da globalização parece-me não haver outro rumo.
Prevejo com facilidade, e em forte ritmo, a tendência de mecanizar as massas no sentido de nivelar as populações, não em condições de vida, mas em hábitos e tendências de consumo.

E onde ficam as nossas raízes e a nossa língua?

Não ficam, ou seja, ficam por mais algumas gerações para depois se esfumarem.
Um dia haverá uma única língua, e todos os costumes passados serão apenas memórias e história.
Mas tudo isto é um dia; e tudo aquilo que virá “é algo oculto excepto para Deus”.

Tristão de Andrade

O amor é feito de esponja.

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Estiquei a mão para te tocar, e toquei.
Consegui. Senti a incrível sensação da tua pele, e adernei na almofada. Ganhei as estrelas ao ver-te adormecer.
Antes de fechares os olhos ainda me perguntaste:
– De que é feito o teu amor?
– De esponja. – respondi encantado e perdido na tua serena beleza natural.
– Esponja?
– Esponja. – confirmei.
Fiquei em silêncio mas não me devolveste resposta. Adormecestes. E, eu? Eu fiquei sem tempo para te explicar.
O meu amor é feito da esponja mais macia e absorvente que possas imaginar. Consegue sorver todas as gotinhas das tuas lágrimas de alegria e tristeza, limpa as tuas preocupações, e lustra os teus sonhos. Na verdade o meu amor é feito de tudo aquilo que precisas, seja noite ou dia, faça chuva ou prometa raiar sol. E como esponja de qualidade encolhe quando assim obriga, expande quando é necessário, e tudo para estar à tua altura.
Se amanhã me voltares a fazer a mesma pergunta, de que é feito o meu amor, talvez te responda que é feito de elástico.
O princípio é o mesmo porque o sentimento, esse, nunca muda.

Tristão de Andrade

Tu és poesia, sabias?