Instruções

Semeia quando fores a passar que eu sou as pernas secas que não conseguem parar de crescer na tua direção, as frases confusas que nunca queres organizar, e as palavras malucas que invento só para te dizer e explicar que o amor é tudo o que nós quisermos. Natureza estranha que edifica o monstro cruel em paraíso colorido. Deixa lá as horas, esquece a agenda apertada, hoje é tudo ou nada, vamos comprar um pedacinho de loucura à rua dos Prazeres, encher os mistérios da vida com razões que nunca ninguém quis explicar ou compreender, e no final da noite, ao deitar, reconstruímos com poesia a casinha de bonecas que sempre sonhaste ter. Fica assim; apática, serena, em moldes de frustração com tinta fresca a correr pelas paredes do teu coração. Aventura-te, aceita ordens de uma voz interior que só tu consegues escutar, diz-lhe que sim, segue-a, e descobrirás o teu caminho. Porque esperas? Agarra numa caneta, pincel, lápis ou cinzel e mãos à obra, revela-te e deixa o universo entrar em ti, já disse o poeta nos dias de ontem:” mostra a tua humildade no quanto permites que o mundo te conheça. Entrega-te”. Cria e recria a arte que tens e transportas, reconhece os valores que multiplicas, acredita-te na renovação dos bons sentimentos. E, se nos inícios tudo te parecer feio e descomposto compreende que o corpo já tens tu, e só te falta acrescentar sal e calor de Agosto. Eu cresci assim, e preciso que tu cresças comigo para juntos sermos maiores, mais artísticos, mais poetas. Demoras? Escreve cada palavra como se tratassem de poesias completas, lê cada linha com o sentimento de teres devorado um romance de mil páginas, e toma cada letra como se fosse tua, porque na verdade; é. Sabes? “Mesmo que te julgues uma frase sem sentido acredita que serás sempre a mais bela das poesias”. Escreve, escreve-te e escreve-me, sim, aceita-te na cor, forma e tamanho, e quanto ao resto pensa apenas que tudo não passa de crônicas medíocres de revistinhas de cordel. Tu és poesia por isso cuida, faz chover, acarinha e colhe. Tudo aquilo que plantares no teu peito crescerá na força do teu coração, e quando semeares em peito alheio verás o milagre da multiplicação. Por fim, quero que saibas e reconheças que és terreno fértil onde juntos acabámos de plantar a semente mais maravilhosa que o mundo dos Homens conhece: a poesia.

Tristão de Andrade

Jantamos?

Deixa-me convidar-te para jantar. Hoje espero por ti. Sei como tudo irá começar mas confesso que desconheço o fim. Vá lá confirma que vens, não me faças tremer na minha própria insegurança. Eu sei que tu não a tens mas eu às vezes não sei o que é ter esperança.
Sabes? Posso olhar de forma fixa para as coisas mas dentro de mim há algo de se agita; são os medos, os receios, as tempestades, os pedacinhos de vidro e as coisas partidas que insistem em ficar. Não cortam mas magoam. Bom, não me quero perder neste meu mal-estar, e volto a ti, vá lá, vens jantar? Diz que sim. Prometo muito e tanto; luzes, velas, boa comida, animação, escutarás com agrado e espanto que escrevo poesia, música e também canto. Farei das tripas coração é promessa. Mas eu sei que não virás, nem por muito que eu te peça.

Tristão de Andrade

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A Penhora

Há sempre um momento na vida em que todos temos um estranho sentimento de penhora. Ficamos expostos à humilhante sensação de ver o que é nosso ir embora às costas de um terceiro. Há quem perca móveis, contas bancárias, automóveis, casas, barracas, filhos, pais, cônjuges seja lá o que for, a perda é real e a visão do mundo nunca mais volta a ser igual. Tal como o mundo tem os seus fenómeno severos também nós estamos à mercê de tempestades, cheias e terramotos.
Se a morte chega?
Penhora-nos a vida. Esta lei até consigo compreender. Mas se o dinheiro não chega? Levam-nos tudo aquilo que nos venderam como fundamental. Às vezes acho que o plano comercial é exatamente esse; vender, penhorar e voltar a vender. Lucros de cem porcento ao ano. Se a droga ou os maus caminhos cercam os nossos filhos lá os carregam para os infernos. Enfim, o cobrador está sempre ao virar da esquina, permanentemente disponível para nos pendurar numa forca que sufoca, faz sofrer, mas não mata; agoniza. Depois há os caminhos degradantes da casa do penhor, onde passam todos desde o farsante ao doutor, e ninguém vive sem lá dar a cara. Anéis de família, canetas de ouro, obras raras, e tudo porque há uma mão invisível que obriga a beber o próprio sangue. Vai um dia o mundo ainda chegar aos extremos loucos, e nesses futuros já normais, penhoram-se os órgãos mas, não os vitais, pois antes moribundo que morto. Cadáver não paga dívidas.

Tristão de Andrade

Julieta

Julieta e o adúltero

Abre a porta Julieta, abre a porta mulher. Deixa-me provar que as tuas ideias fixas não são mais que quadros pendurados em preguinhos de esperança. Que retrato tens tu na parede se o homem que esperas ainda não chegou? José? António? Romeu? Que importam os outros se quem te bate à porta sou eu. Esquece os anúncios da chegada de quem nunca “vai vir”, deixa-me lá entrar. Vem cá fora ver as minhas lágrimas a cair. Julieta? Julieta? Trouxe-te o prazer, por favor, abre, vais recusar? Esquece tudo e entrega-te. Embarca comigo nesta viagem de regresso ao estado animal, vamos cruzar as nossas carnes na matemática perfeita das contas da natureza. Vá lá, destranca a porta, tenho tempo, só preciso de estar em casa à hora de jantar. Porque não me aceitas? Eu sei que temes viver o amanhã com o sentimento saudoso de já ter sido ontem. Mas que posso fazer? Nasci assim, e por mais amores que tenha espalhados pela cidade, prometo Julieta, serás sempre a primeira nem que para isso mude ou invente mil novas leis para ser omnipresente.

Estado d’Graça

Um dia acordamos e tudo está bem, as pancadas batem certo, os elogios começam a chegar e o reconhecimento é geral. Deixamos de ser qualificados na mediocridade ou estratificados no piso “ZERO” para personificarmos a ascensão ao soberbo universo do “SER” maior. Recebemos sorrisos inesperados e cumprimentos impensáveis. Somos invadidos e embalados por um bem-estar estrelar que nos convida a abandonar a sombra. Queremos passar a viver ao sol, a comer à mesa mas sobretudo a acordar cedo.

Quem nos ataca? A vontade de viver. E qual a razão? Que energia ou motivo? Que vontades divinas se alinham para nos proporcionarem tamanha oportunidade?

Onde está a justificação para um estar em GRAÇA e outro em decadência? Benção? Esforço? Profissionalismo? Amor? Ou viverá o mundo na dependência dessa balança que se equilibra entre a felicidade de alguns e a tristeza de outros?

É cruel mas poderá ser uma das verdades da nossa existência.

Será que todos podemos ser ricos?

 

Tristão de Andrade

Inundação

Está a chover o que não é nada de novo. Chove torrencialmente e isso é normal. O país vai ficar inundado; já está confirmado.

Dizem os antigos que a chuva lava a alma e a rua, e que as suas águas servem para encher rios e depósitos. Que seria feito de nós sem esse bem maravilhoso que cai do céu? É importante sentirmos a natureza beijar as nossas cabeças em modos de fúria maternal, pois só assim regressamos à nossa condição de humildes habitantes deste planeta. Existe em cada chuvada, intempere ou aguaceiros um tanto de poesia; uma verdadeira oportunidade para recomeçar e desvendar novas indicações para o caminho. Depois da tempestade eis que surge lá longe a bonança. É imperioso  lavar o rosto nas águas que tombam e erguer as vontades para afastar as nuvens. Olha a rua e deixa a chuva cair, não te incomodes, ela precisa de acontecer; leva os teus pensamentos até àqueles que sofrem das cheias, das correntes fortes que se formam à sua porta e presta ajuda a quem precisa. Dá o teu braço para limpar os lares que se inundam, e o teu abraço aos corações que se afogam.

Entre o início deste texto e o seu fim é muito provável que terras se tenham deslocado, lágrimas começado a cair e outras tantas preocupações chegaram com as águas.

Vou agora à rua olhar a estrada, e ver se alguém precisa da minha ajuda, afinal o país está a ficar inundado e haverá com certeza muitos corações a boiar.

 

Tristão de Andrade

Domingo à noite

As noites de domingo são sempre especiais. Conseguem e possuem um poder único que convida à reflexão. Uns servem-se dela para lamentarem o final do fim‑de‑semana, outros choram a partida das horas vagas mas há também quem suspire de alívio por faltar pouco tempo para partir.

Se formos gente de coragem, de grande coragem – diga-se – lá nos sentamos à frente da televisão. Vendemos a nossa alma ao diabo e consumimos os programas da atualidade. Olhamos as imagens, ouvimos as barbaridades, pensamos na vida, e no final da noite desligamos o aparelho com a perfeita sensação de perda de tempo. Talvez na verdade sejamos apenas audiência de publicidade. As novas gerações crescem entre programas de tv, comunidades virtuais e fast-food. Andamos desnorteados, sem rumo mas sobretudo desorganizados nas emoções. Preferimos olhar e criticar os nossos pares a apoiarmos quem sofre. Há gente que morre ao nosso lado e cujo doenças tem nome e cura, e ainda assim a nossa reação é virar a cara. É fácil apontar, escrever, reclamar e na hora da verdade não fazer nada. Todos somos um pouco assim: senhores da sabedoria teórica incapazes de agir. Mas talvez seja essa a verdadeira justificação da noite de Domingo; para pensarmos e reflectirmos, para ganharmos consciência que algo está mal no mundo. Provavelmente por agora não se tome uma atitude e tudo continue na mesma, mas pensar e raciocinar já é um começo, já é um princípio; e talvez seja exatamente por isso que o Domingo à noite se transforma em momento perfeito para a reflexão.

Tristão de Andrade

Pensar a escrita

Não há tempo, não há hora ou momentos para escrever.  Afinal quando é a melhor altura para o exercício da escrita? Quando chega a inspiração? As revelações? As vozes? Os discursos que se constroem? Em cada um de nós há um verdadeiro poeta, um sábio da vida com a necessidade de relatar as experiências. Talvez isso faça de nós verdadeiros escritores e relatores da realidade. Desejamos oferecer obra ao futuro e sonhamos deixar marcas da nossa passagem. Uns conseguem com poucas palavras dizer muito, e outros precisam de tanto para não conseguirem dizer nada, mas cada um tem o seu estilo, a sua forma e o seu jeito. Qual de nós é melhor? Não interessa a pergunta. Importante é aquilo que escrevemos; e mais importante ainda é não julgarmos aquilo que os outros escrevem. Em cada linha um pensamento, em cada palavra um sentimento mas num texto sempre um pouco de nós.

 

Tristão de Andrade

 

Hoje nasceu o Discurso.PT

Na verdade o blog já existe há algum tempo mas o mesmo tempo não me tem permitido escrever nestas páginas. A minha atenção tem sido virada para a publicação no Facebook. Mas agora esta é também a minha nova forma de comunicar, escrever e partilhar.

Aqui ou lá – FB – https://www.facebook.com/TristaoDeAndrade – quero e vou estar sempre em contato com quem me lê, e com quem deseja partilhar comigo momentos e sentimentos.

Este será um espaço mais abrangente, com novas vertentes e dinâmicas, com novos conteúdos e participações, com imagens, fotos, desenhos, música e tudo aquilo que for possível partilhar.

Quero escrever para merecer a visita.

Até já: aqui ou lá.

Tristão de Andrade