amor

Frente a nós

Tu e eu precisamos de amor. E quem não precisa? Amor físico, fraterno, cuidado, desorientado, grande, pequeno e até desarrumado; seja lá como ele for tem é mesmo de ser AMOR. Comprado, doado, trocado enfim um sem número de movimentos que podem culminar num suspiro cansado na hora de deitar. Amor de poesia, amor de prosa, amor de betão ou amor de rosa, importante é ser forte e verdadeiro. Amor acompanhado de paixão, amor amanteigado com ou sem pão, com saliva, com excitação, com alma, depressa ou com calma, mas sempre a nascer na fonte. Amor musicado, erudito ou simples cantiga. Amor é ponte que em dias de chuva também nos abriga. Amor curado, amor sem penso que por mais magoado só pode ser intenso. Amor temporal condensado num raio, e sempre amor experimentado em mais um ensaio.

Tristão de Andrade

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Deixa-me tocar a tua alma de forma doce e delicada com o meu jeitinho açucarado de um tudo ou nada desesperado em te querer tanto. Abre a porta da frente, e como quem sente amor profundo convida-me a entrar mas, se pelo contrário me temeres deixa a janela do fundo entre e aberta, eu chegarei à hora certa para cumprir a minha missão. Sente o suave toque da minha mão embrulhada no cândido paladar da minha saliva, não fiques em choque, entrega-te, tu a mim dás-me vida e eu a ti dou-te tudo aquilo que tu quiseres.
Tristão de Andrade

Vulto

Vulto
Esta noite sonhei contigo. Estavas deitada ao meu lado de rosto e queixo virado para a janela que nos iluminou. Dormias um sono sagrado enquanto eu apaixonado decorava de ponta a ponta as curvas do teu corpo. No ar uma brisa de paz acompanhava um aroma de certeza: estava feliz.
Para mim não há explicação que explique a emoção daquilo que o meu coração diz. Em fantasia ou na realidade, mulher, eu sempre te quis.
Hoje acordei contigo e tu já não estavas ao meu lado. Dormi uma noite inteira e mesmo assim despertei cansado; cansado de correr atrás de ti através de um sonho que afinal foi só meu, e acordar? Acordar foi a parte que mais me doeu.

Tristão de Andrade

Partidas

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Sabes? Quando partes eu nunca fico triste, nunca choro nem me deixo desabar como construção de cartas. Não fico perdido, não em irrito, não me lamento nem tão pouco me atiro de cabeça para um estado de alma depressivo. Quando partes eu fico absolutamente normal, com uma pequena e ligeira dor no olhar porque é só aos olhos que me vais faltar. E porquê? Porque que dor posso eu sentir, se na verdade, dentro de mim, tu nunca chegas a partir?

Tristão de Andrade

Espelho Meu

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Bom dia. Como estás? Bem? Hoje venho com um sorriso, não trago poesia, palavras combinadas ou pensamentos rebuscados, chego unicamente com um sorriso nos lábios. No meu olhar trago a simplicidade, no meu chegar umas coisinhas mais que podes considerar como docinhos. Toma. É para ti. Aceita este pequenino presente de agradecimento pelo carinho, pelos bons dias, e pela atenção que me tens dado. Posso-me sentar? Tens tempo para conversar? Que te posso dizer? Deixa ver! A hora vai mudar, os dias já estão mais pequenos, as noites vão arrefecer e já consigo sentir no ar um cheirinho especial a natal. Faz como eu, enche o peito, respira e conta até dez, não há outra coisa melhor na vida senão esta suave sensação de sentir esperança. Vá lá, não penses nisso, não te permitas viajar nas tristezas que te consomem; neste instante em que eu estou a passar, por mim, solta um sorriso, já não peço uma gargalhada, só uns lábios rasgados. Escuta: ri um pouquinho todos os dias não vá o teu rosto esquecer os caminhos automáticos que o corpo usa para abrir a tua cara em flor. Insisto, não me importo, eu deixei tudo em casa, despi a capa de poeta, de autor, de escritor e de todas as coisas que eu sou, mesmo que digam que não, e vim até ti só para te dar a mão e suplicar um sorriso. Se me deres uma gargalhada, agradeço, mas se me prometeres que vais amar mais um pouco, eu prometo, que esqueço e te faço esquecer todas as agruras da vida. Estás tão lindas nessas roupas. Que importa a cor? Azul, amarelo, preto ou vermelho? Percebes agora que quem te está a falar é o teu espelho?

Tristão de Andrade

Ser Poeta

Eu sempre quis ser POETA. Aprendi a escrever e escrevi, cometi “errus” ortográficos e misturei acentos com vírgulas, perdi-me em pensamentos comuns e transcrevi sentimentos. Deixei-me levar, fiz esforços para rimar, obriguei-me a sentir e, voltei a escrever. Escrevi em papel com caneta azul coisas que vou sempre guardar, usei por vezes lápis para poder apagar até que por fim lá me rendi ao computador; e que dor escrever em plástico, mas que fazer? Poeta ou vai à frente ou fica para trás e perde o título. Recordo as noites de insónias em que passava horas entre o lençol e a almofada a escrever tudo aquilo que me magoava. Era até doer o corpo porque a posição também não era a melhor. Alma torcida e pensamentos ao alto. Todo torto. Mas eu lá ia arrancando de mim todos os segredos e medos que só a poesia sabe desvendar. Bons tempos em que me julgava um pequeno mestre de palavras. Eu sempre quis ser POETA, sempre foi um sonho que mantive e edifiquei nas longas noites em que me entreguei ao nobilíssimo movimento do sentir. Rei e senhor do único Império feito de um tanto de “nada” que só consegue ser “tudo”. Mil noites já passaram, e outros mil domingos já se juntaram ao calendário das minhas memórias, e eu, eu sempre a escrever. Quem sabe um dia ainda descubro que já era poeta mesmo antes de nascer.

Tristão de Andrade

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Quantas vezes consultas o relógio e nem te apercebes de que horas são? Quantas vezes lanças o olhar para longe, para as paisagens ou para a televisão e segundos depois não te recordas das imagens que viste? – Ou que não viste. Foram quantos os olhares que hoje cruzaste com gente que já nem recordas o rosto? São tudo ideias que fervilham, telefones que tocam, mensagens que chegam e e-mails que não dão descanso. O entra e sai das salas, gabinetes, das linhas de produção, do trânsito e do inferno da cidade. A loucura desmedida que nos faz levar as ideias para longe, que nos provoca o pânico misturado com o calor de um dia ora de inverno ora de verão. A confusão, e nós. Nós aqui, ali, por lá longe, perdidos nas estradas mas sobretudo no nosso próprio olhar, de pensamentos tomados e de nervos em ponto de explosão. Reagimos mecanicamente e respondemos por reflexo. Percorremos jornadas sem memória. Mais uma semana que passa aos nossos olhos, e nós tal como fazemos ao relógio, nem tão-pouco nos apercebemos dos dias que lá vão. Assim vivemos para assim morrermos.

Tristão de Andrade

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A vida é um misto de alegrias, tristezas, problemas e soluções. E, se assim não fosse que outras atividades nos restariam? Construímos pontes para as atravessarmos, chegando mais rapidamente ao destino, mas também para as passarmos por baixo, onde por fim, num desdém ao criador, as condenamos à destruição. – e estamos a falar de pontes, literalmente de pontes.
Evoluímos na directa dependência do aperto e da oportunidade. A invenção nasce de duas coisas em excesso: tempo e necessidade. Um homem com demasiada possibilidade dedica-se à criação, e o mesmo homem com falta e fome obriga-se à produção. Se temos em excesso: rejeitamos; e se sentimos carência: suplicamos. Não fomos feitos para viver em velocidade moderada embora seja esse o ideal de vida que nos é incutido.
As nossas fibras exigem movimento, exercício, acção, excitação, suor e sangue. As nossas entranhas impõem-nos mutação. O nosso cérebro vive aprisionado numa caixa craniana incapaz de acompanhar ou conter o ritmo do seu crescimento. Fisicamente começamos a viver o desconforto da matéria. A carne não segue o sonho e sem ela não há materialização da evolução. Mas ainda assim num futuro longínquo onde o “já” será, quem sabe, o insaciável desejo de ter mais, a nossa vida nunca deixará de ser um misto de alegrias, tristezas, mais problemas e novas soluções.

Tristão de Andrade

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Todas as manhãs acordo com uma terrível vontade de sair de casa. Cuido-me, visto-me e rumo à pastelaria. Para mim é fundamental tomar o pequeno-almoço em sociedade. Não sou de gostos caros e por isso um qualquer café com leite acompanhado de pão e manteiga já alimentam e alegram o meu estômago. E, ali fico sentado por largos minutos a pensar e a escrever. Não é imperioso ocupar a melhor mesa da esplanada ou sentir-me virado para o mar, afinal toda a viagem vai acontecer dentro de mim, e vai sobretudo realizar-se no sentido único da criação.
Papel, caneta, pessoas – vida – e ar puro são os ingredientes fundamentais na minha receita.
Escrevo sempre num misto de concentração e atenção a tudo o que me rodeia, transformando a minha alma num receptor permanente das mensagens que me são enviadas. Leio as notícias, observo quem passa, faço um rabisco num guardanapo e preparo-me para partilhar. Ouso acreditar que consigo sentar o mundo inteiro à minha mesa, e algures no meu imaginário chego a acreditar que o estou a fazer. Penso no passado, no presente e no futuro. Chamo à memória as almas dos que partiram, e lembro carinhosamente quem me acompanha. Aceito-me assim: apaixonado. Ordeno expressamente ao meu íntimo para pescar nas profundas águas do mistério os segredos que pretendo revelar. Apresento-me como caçador de medos, e talhador de consciências. Despertador de inteligências. Dou início a uma guerra do bem contra o mal, de nós contra eles e na defesa dos inocentes. Por mim não deixo ninguém verter lágrima. Apresso-me a empunhar a única arma que sei manejar: o verbo “dar”.
Este é o meu processo, o meu acontecimento maior, a minha forma de acreditar que todos somos incrivelmente capazes de fazer e sentir mais. Este é o meu “bom dia”, o meu começar intenso num recomeçar maravilhoso de cada manhã.
Este sou eu numa viagem única chamada de VIDA.

Tristão de Andrade

Competição

Eu e as pedras!

Sabes aquele sentimento de querer tudo e no final não ter nada? Aquela ideia que já identificaste em líderes políticos, homens de estado e tantos outros que ameaçaram os seus pares com gritos de guerra? Sim, esse mesmo gosto de ganância, de querer, de conquistar, de tomar aos outros tudo aquilo que basicamente não é de ninguém. Sabes do que falo? Pois é, aquela mania estranha que alguns de nós temos em pensar que tudo está ao alcance da nossa vontade. A misteriosa segurança que afecta as inteligências caducas na confiança de terem tudo no amor, na vida e em casa quando na verdade não têm nada.

Não é preciso recorrer ao espírito poético para lembrar que a única posse é a morte.
Eu não te tenho, nem te domino, nem te possuo e nem quero.
Ironia.
Lutamos e matamos para comprar um pedacinho de terra onde nos vão enterrar, brigamos para ter em nosso nome um carro novo que depressa fica velho, uma casa virada a norte que, com a nossa sorte, chega uma crise e leva tudo. Comemos para viver e depois só queremos é emagrecer.
Vivemos depressa e desejamos urgentemente ter um tanto que afogue a alma em orgias de prazer.
Somos coveiros do vazio que tentamos preencher com ar, e a viver na ansiedade de não deixar nada por fazer. E, quando anoitece temos encontro de contas, somamos as conquistas, subtraímos as derrotas, dividimos tudo por quem amamos, multiplicamos o resto pelo sonho para no fim resultar tudo numa insónia de preocupação.

Tristão de Andrade