Os filhos da net…

Eu sou do tempo do telefone em casa da vizinha ser o único do bairro inteiro, qualquer coisa era para casa dela que a família ligava. Eu sou do tempo dos clubes e concursos viverem na volta do correio, e nos cupões que se remetiam pelos CTT. Eu sou do tempo em que o Zé pedia à Teresa para conhecer a prima gira e atrevida. Eu sou desses anos loucos e efervescentes e só tenho 33 anos. Agora vivo o tempo agarrado ao telemóvel, porque se a vizinha tivesse que atender metade dos meus telefonemas não fazia mais nada, ao computador porque se não estivesse ligado ao facebook aos meus amigos virtuais cobrar-me-iam da forma mais ciumenta possível. Como é possível em tão pouco tempo eu já ser de tantos “tempos” diferentes? Camões foi do seu tempo e ficou lá, pessoa foi do seu temo e aí permaneceu, e nós? Já vivemos guerras pela tv, festivais da canção, jogos da bola, quedas de papas, terramotos, tsunamis, e agora gostamos, amamos e vivemos na rapidez de uma ligação informática. Os cem megas de fibra que me fornecem são comparáveis à dose de cocaína pura. Hoje podemos definir o grau de dependência das novas tecnologias pela velocidade de serviço de internet. Então se a ligação é a droga, os conteúdos trazem os efeitos. Os consumidores, uns vão para a carga pesada mas barata, pornografia, de fácil acesso, que deixa uma moca das terríveis, obriga a ficar horas, a voltar fora de horas, às escondidas, em alturas que ninguém controla… Sempre à socapa. Depois há o produto banal, tipo haxixe para fumar, dá uma onda baril, tranquila e leva a falar com tudo o que mexe: redes sociais. Se observarmos o resultado é idêntico. Depois de uma boa broca todos ficamos com ar felizes, animados, próximos, sociáveis e acessíveis… Mesmo se der para enjoar continua a ser igual, a ganza dá para chorar a vida, no facebook escreve-se: estou infeliz. Ultrapassados estes dois exemplos vamos subir o nível do produto, algo mais moralmente aceite mas igualmente viciante, falo do tabaco, que no mundo da internet são nada mais nada menos que as compras online. Haverá cartão de crédito virgem nestas andanças. Fuma-se um cigarrito às escondidas da mesma forma que se compra uma coisinha ali, aqui e acolá. Com a mesma facilidade que se pára para fumar num dia de trabalho vai-se ao ebay e “toma que aqui vai disto”. Por fim, e apenas a título de exemplo, porque podíamos ficar aqui o dia inteiro a comparar “cenas” e internet, deixei as cigarrilhas, o canabis e por aí fora em paz, recordo o belo charuto. Este imponente vício que conduz novos e velhos na procura desenfreada de estatuto encontra paralelo nos blogs. Quem tem acha-se intelectual, erudito, numa só expressão um porreiro da idade moderna. Haverá algum aspirante a ser alguém no mundo da política, ou seja lá o que for, que não tenha um? Tal como o aspirante a nova classe social que fuma o seu charuto de forma arrogante e pseudo-monárquica.
Na verdade disse um dia alguém que “um homem sem vícios é um homem sem virtudes” mas esse tal desconhecia que a internet iria fulminar os vícios e transformar a inteligência humana em simples traficantes ao nível das pobres mulas.

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