O que nunca te direi!

Escrevo-te num pedacinho de papel que encontrei no bolso do casaco, pedi uma lapiseira ao simpático empregado do bar, e aventuro-me a escrever-te. Estou sozinho, não há ninguém nas mesas em meu redor, não há vozes nem conversas, apenas o silêncio interrompido pelos ruídos comuns de um estabelecimento em manutenção. Passo os olhos pelo chão, pelas paredes, pelo mobiliário moderno que veste esta sala acolhedora, fecho os olhos escondidos em óculos de sol, respiro fundo e atrevo-me a despejar neste papelinho tudo o que sinto por ti!

Hoje é o dia certo para abrir o meu coração. Não quero guardar nada, preciso dessa auto-estrada para acelerar e depositar todas as ânsias no asfalto, derreter os meus pneus emocionais, parar, abastecer, voltar à louca velocidade e renovar-me a cada quilómetro percorrido.

Então aqui vai: eu quero ou melhor… queria ter-te o tempo inteiro, ser o alvo certo do teu olhar, queria ser o ponto fixo da tua intenção, desejava estar no início do teu dia, no decorrer do teu almoço, acompanhar-te ao jantar e aconchegar-te na hora de dormir. Deixa-me escolher o que vestes, e ajudar na cor da maquilhagem, levar-te ao trabalho e receber-te a altas horas já noite depois das tuas saídas com amigas. Permite-me ser o peso, o contrapeso, quem te carrega os sacos das compras e quem te ajuda a limpar a chão da casa. Permite-me fazer e refazer e voltar a fazer a tua cama porque quero ser o único a desfazê-la. Vem voar comigo, compramos uma viagem para o fim do mundo com passagem em todas as capitais da Europa. Eu não conheço Londres.

Chegou a hora de apertar a letra, o papelinho que uso para te escrever é mesmo pequenino, e não há assim tanto espaço onde possa meter tudo o que te quero dizer.

Agora perdi-me, deixa-me ver onde ia, quero… quero… desejo… desejo ouvir os teus concertos e começar a gostar das melodias lindas que ouves, que te encantam. Quero-te encantar com as minhas escolhas musicais, e impressionar-te com os meus gostos gastronómicos. Sonho com o teu olhar de admiração, queria tanto que me visses como herói, como o construtor do império que os teus pais sonharam para ti. Deixa-me ser o homem perfeito mesmo que essa perfeição que exiges seja obstinada e louca. Por ti serei o louco que me pedires porque por nós amarei o tanto que ninguém nunca conseguiu escrever. Mas deixa-me confessar-te… agora que acabei este bilhetinho, e não há mais espaço para escrever… vou devolver a caneta ao simpático senhor do café, amarrotar este amontoado de palavras… e devolvê-lo ao mundo dos segredos. Vai tudo voltar para a escuridão e eu voltarei a ser esse pássaro que não voa. Afinal isto é apenas o que sinto… mas que nunca deixará de ser aquilo que nunca te direi.

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