Eu e as pedras!

Hoje deixo-me ir, não penso nas coisas, não quero pensar em nada, nem nas mil responsabilidades que a vida me atribuiu ou nas obrigações que os homens e suas instituições me ofereceram à nascença. Vou sonhar que não sou nada, ninguém, vou-me reduzir à migalhinha de coisa pouca que represento neste universo de coisas grandes. Vou fechar os olhos, suster a respiração e passar despercebido. Vou ficar incolor, inodoro e completamente neutro. Quero adquirir a pretensão de um grão de areia, remeter-me à simplicidade da matéria terrena sem nunca esquecer que jamais o Homem poderá sonhar chegar à comparação possível com as pedras… afinal os calhaus inertes que nos magoam nas quedas, que nos servem como muros, casas e paredes têm simplesmente mais vida e existência que nós.

Vou pensar que elas, as pedras, sofrem com o vento, com a chuva, com o calor… com os milhões de anos que percorrem num caminho lento de erosão. Sofrem com a rotura dos mundos velhos e a chegada das humanidades novas onde os animais cobiçam dominar o planeta, e almejam virar gente para encetar a proeza de pastorear os seus irmãos.

Vou pensar que elas, as pedras, observam homens a ganhar forma, bichos a transformarem o corpo, chuvas a cair, e novamente homenzinhos a comandar exércitos, a matarem os seus pares… tiranos a surgir, a morrer e a voltar de novo, e mais tiranos, e depois ditadores, e logo de seguida salvadores, e tudo passa num pequeno ápice de segundos neste universo de milhões de anos.

Vou pensar que elas, as pedras, ficam serenas a ver o Homem construir para depois destruir, que manda prender para depois matar, para depois fazer nascer, e por fim decidir que errou em tudo e então precisa voltar a fazer de novo.

Vou pensar que elas, as pedras, vão permitir todas estas loucuras a uma raça que se julga dona de uma terra, quando no fundo a única coisa que detém é o tempo em que cá vive, e logo esse tempo que nada mais é senão uma misera passagem no calendário universal. Somos uma brisa efémera que já passou.

Vou pensar que elas, as pedras, do alto da sua humildade vão ficar a ver os pobrezinhos dos humanos julgarem que podem controlar um mundo que não é deles, nunca foi e nunca será… porque na verdade até elas, as pedras, são tão mais que nós.

 

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