Feita para brilhar.


Vejo-te ao longe como se fosses um ligeiro traço no céu, esforço o olhar, levanto a expressão, faço de tudo para confirmar que és realmente tu quem vai a passar. Vou sozinho, não posso pedir ajuda, mas os meus olhos confirmam aquilo que o meu coração tem certeza: és tu. Consigo-te quase sentir o cheiro, e se não fosse exagerar até dizia que daqui conseguia reconhecer o teu sabor. Há cabelos, jeitos, modos e tantas outras coisas que não enganam, não precisas vestir o teu casaco verde para eu saber que és tu, deixa-me confessar, conheço-te tão bem vestida como imagino nua. Já para não falar no andar majestoso, quiçá misterioso, onde apenas tu te consegues equilibrar. Eu gosto de o ver no meu sentido, mas agora dá-me a ideia que vais para lá. Vem para cá! Eu estou aqui. Fico atrevido, ganho vontade de gritar o teu nome, mas como poderia fazer-te escutar a minha voz sem ser em tom desesperado? Ganho vergonha, olho o chão, é o tudo ou nada, devo correr? As dúvidas são tantas num pedacinho de tempo que posso contar em cinco passos teus. Descuido-me e a proximidade faz-se agora longínqua, a oportunidade é um “já” que nunca se pode deixar para “depois”, os meus olhos começam a perder a tua imagem, e tu começas a ser apenas traço num céu distante onde sonhava ser eu a tua estrela cintilante.

Tristão de Andrade

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Porta Aberta.

Nunca me canso de dizer o quanto gosto e preciso de escrever com a porta aberta.

Eu sei que esta é a forma certa para percorrer o mundo dos sentimentos, das ideias e da vida. Pela janela deixo entrar a luz, uma ligeira corrente de ar e em troca liberto por lá o meu olhar que só termina no infinito.

Deixo sempre a porta aberta, convido-te a entrar, casa pequena que aperta mas nem assim a vou fechar. Peço-te que tragas as experiências, as tuas raivas, os dias de sol, as chuvas e as saraivas.

Eu aprendo contigo, tu cresces comigo; ensina-me onde fica o sul que eu logo te aponto o norte. E como me fazes sentir mais forte!

Assim vou escrevendo sem sair do meu lugar, sereno na minha aventura, e à espera da tua visita porque quando estás tudo é uma verdadeira descoberta.

Entendes agora porque só sei escrever de porta aberta?

Tristão de Andrade

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Agricultura do amor

Semeia quando fores a passar que eu sou as pernas secas que não conseguem parar de crescer na tua direção, as frases confusas que nunca queres organizar, e as palavras malucas que invento só para te dizer e explicar que o amor é tudo o que nós quisermos. Natureza estranha que edifica o monstro cruel em paraíso colorido. Deixa lá as horas, esquece a agenda apertada, hoje é tudo ou nada, vamos comprar um pedacinho de loucura à rua dos Prazeres, encher os mistérios da vida com razões que nunca ninguém quis explicar ou compreender, e no final da noite, ao deitar, reconstruímos com poesia a casinha de bonecas que sempre sonhaste ter. Fica assim; apática, serena, em moldes de frustração com tinta fresca a correr pelas paredes do teu coração. Aventura-te, aceita ordens de uma voz interior que só tu consegues escutar, diz-lhe que sim, segue-a, e descobrirás o teu caminho. Porque esperas? Agarra numa caneta, pincel, lápis ou cinzel e mãos à obra, revela-te e deixa o universo entrar em ti, já disse o poeta nos dias de ontem:” mostra a tua humildade no quanto permites que o mundo te conheça. Entrega-te”. Cria e recria a arte que tens e transportas, reconhece os valores que multiplicas, acredita-te na renovação dos bons sentimentos. E, se nos inícios tudo te parecer feio e descomposto compreende que o corpo já tens tu, e só te falta acrescentar sal e calor de Agosto. Eu cresci assim, e preciso que tu cresças comigo para juntos sermos maiores, mais artísticos, mais poetas. Demoras? Escreve cada palavra como se tratassem de poesias completas, lê cada linha com o sentimento de teres devorado um romance de mil páginas, e toma cada letra como se fosse tua, porque na verdade; é. Sabes? “Mesmo que te julgues uma frase sem sentido acredita que serás sempre a mais bela das poesias”. Escreve, escreve-te e escreve-me, sim, aceita-te na cor, forma e tamanho, e quanto ao resto pensa apenas que tudo não passa de crônicas medíocres de revistinhas de cordel. Tu és poesia por isso cuida, faz chover, acarinha e colhe. Tudo aquilo que plantares no teu peito crescerá na força do teu coração, e quando semeares em peito alheio verás o milagre da multiplicação. Por fim, quero que saibas e reconheças que és terreno fértil onde juntos acabámos de plantar a semente mais maravilhosa que o mundo dos Homens conhece: a poesia.

Tristão de Andrade

Foto – Fonte net